Por que resistir é fundamental para a literatura curda

Este texto é uma parceria entre a revista Luminares e o portal Literary Hub. A autora Ava Homa fez a gentileza de ceder seu texto, publicado originalmente em 12 de novembro, para tradução e publicação. Você pode encontrar mais informações sobre sua obra e carreira no seu site pessoal.

No texto abaixo, Homa reflete sobre o que o trauma e o exílio a ensinaram sobre ser uma escritora sem um país para chamar de seu.

Foi crescendo como uma menina curda no Irã que aprendi, desde cedo, que estar viva era um ato de subversão. Pertenço a um povo que foi submetido a genocídios recorrentes. Desde que os Aliados redesenharam o mapa do Oriente Médio após a Primeira Guerra Mundial estivemos sob ataque de quatro Estados abomináveis que nos percebiam como ameaças a serem aniquiladas, jamais como humanos. Do massacre de Dersim (1937-1938) pelas mãos do governo turco, passando pelo genocídio de Anfal no Iraque de Saddam Hussein (1986-1988), pelas execuções em adamento no Irã, até a atual carnificina étnica na Síria, os curdos formaram uma nação sem direito a ter um Estado próprio e, consequentemente, sem direito a existir e viver em paz.

Cresci com histórias de massacres e de como sobrevivemos sendo sussuradas. De como soldados do governo, e até mesmo milícias voluntárias, vieram às nossas cidades e vilarejos para nos matar, para fazer mais do que nos matar. Atacaram-nos com gás, incendiaram nossos povoados, estupraram nossas mulheres, fuzilaram pais diante de seus filhos… E mais, muito mais.

Aqueles de nós que sobreviveram ao apagamento físico de nossas vidas enfrentaram a destruição cultural. Os estados que nos governaram disseram que não existíamos ou que, se existíssemos, seríamos o que eles dissessem. Os turcos chamaram os curdos de turcos da montanha. O Irã os chamou de mofsid filarz, os que corrompem a Terra. Os que lutaram contra as agressões estatais foram tachados de terroristas.

Enquanto os pais curdos tentavam proteger sua prole das políticas de “aniquilação ou assimlação”, nós gradativamente perdemos partes de nossa história e desenvolvemos uma dissonância cognitiva entre gerações que dificultou a comunicação. Nossas língua e história foram banidas; nossa dor, ridicularizada e usada contra nós – fomos negados e definidos por opressores, reduzidos a menos que humanos, de maneiras que despedaçaram nosso orgulho e nossa dignidade.

Apesar de – ou talvez por causa de – tudo isso, os curdos se tornaram mestres em se erguer das cinzas. Não ter um Estado nos matou, mas também nos ensinou a renascer. Não é de admirar que nosso lema mais comum, especialmente no Curdistão sírio (conhecido como Rojava), tem sido Barxodan Jiana: resistência é vida.

Para existir e resistir, contei com as artes. A literatura tem sido meu refúgio e meu abrigo, o que dá suporte à minha vida, mas minhas buscas por mim mesma nela foram inúteis. Tendo crescido analfabeta – portanto dela alienada – na língua curda e na sua literatura, procurei por um reflexo meu na língua persa e na literatura mundial publicada em inglês. Contudo nunca encontrei alguém remotamente similar a mim. Ninguém havia escrito sobre mulheres curdas na literatura. Tivemos que fazer isso nós mesmas. Eu ganhei uma bolsa de mestrado em Inglês e Escrita Criativa na Universidade de Windsor, no Canadá.

Assim, meus anos de escrita no exílio começaram. Dei meu sangue e meu suor na criação de contos sobre mulheres iranianas contemporâneas e publiquei Echoes from the Other Land (“Ecos da outra terra”, em tradução livre), que seria nomeado para o Prêmio Frank O’Connor de contos, em 2011. E passei os próximos nove anos escrevendo meu primeiro romance, Daughters of Smoke and Fire (“Filhas de fumaça e fogo”), que será publicado pela Overlook Press, nos Estados Unidos, e pela HarperCollins, no Canadá, em maio de 2020.

“Echoes from the Other Land”
TSAR Publications

Como muitos outros curdos da diáspora, ensinei a mim mesma a ler e a escrever em minha língua materna, e aprendi minha história e sua política. Pesquisei as histórias de mulheres curdas que enfrentaram simultaneamentes as opressões de etnia e gênero e tiveram sua voz ouvidas. Mulheres como Leyla Zana e outras parlamentares, prefeitas e líderes que foram eleitas e presas, que sobreviveram às mais sádicas torturas sexuais e mesmo assim enviaram mensagens de coragem e determinação de trás das grades. Na literatura e na vida real, as fortes mulheres curdas – e também homens, como o professor executado Farzad Kamangar, cuja vida inspirou meu romance, ou como o encarcerado Selahttin Demirtas, que já foi chamado de Obama curdo – viveram vidas complexas e resilientes.

Os curdos conseguiram se autogovernar desde a saída do punho de ferro de Bashar al-Assad, presidente sírio, de suas terras, em 2012, quando ele decidiu voltar sua atenção para a supressão de levantes no sul. Cerca de 11 mil vidas foram perdidas no esforço para derrotar o Estado Islâmico, e tornaram-se virais internacionalmente as imagens de soldadas curdas. Quando Rojava passou a existir, em 2012, tornou-se meu paraíso reconquistado. O que deu esperança e coragem à minha escrita foi o tipo de sociedade criada pelos curdos: um enclave com decisões tomadas de baixo para cima, democrático, feminista, inclusivo etnicamente e ecologicamente sustentável. Baniram o casamento infantil, o casamento forçado e a poligamia, e foram criadas comunas em que as mulheres tinham poder de veto.

Rojava, um oásis em uma região volátil, embora imperfeita, foi outro grande motivo pelo qual acreditei poder construir personagens capazes de agir contra os horrores dos genocídios, das execuções e das traições. A existência, em Rojava, da libertação feminina, do confederalismo democrático e do ambientalismo – um modelo que não só os curdos mas também o mundo necessita – foi uma realidade bastante inspiradora. Os personagens que criei para o meu romance pularam das páginas e habitaram Rojava. Daughters of Smoke and Fire, que é entrelaçado com cinquenta anos da recente história curda, conta a história de três crianças que crescem juntas – Leila, Chia e Shiler -, mas que encontram diferentes meios para desafiar uma não-existência: uma caneta, uma câmera e uma arma.

Entretanto a invasão aconteceu em outubro. Enquanto 400 mil pessoas eram deslocadas, queimadas, mortas e traumatizadas, a desesperança se apossou de mim. Desde então, tenho visto tudo de bom, correto e possível sendo destruído ou usado como moeda de troca entre políticos.

Em meio a vídeos terríveis e outras evidências dos crimes de guerra turcos que surgiram desde a invasão à Síria, um, em particular, me despedaçou internamente.

Uma política curda de 35 anos, Hevrin Khalaf – que vinha trabalhando para promover a cooperação entre curdos e árabes na Síria pós-guerra – é retirada do seu carro e espancada violentamente com objetos de metal. O vídeo mostra milicianos apoiados pela Turquia gritando insultos enquanto a matam. Eles a arrastam pelo cabelo até sua pele desgrudar do escalpo. A mídia de massa na Turquia transmitiu orgulhosamente o assassinato como uma “bem-sucedida operação de neutralização” de uma “terrorista”.

Para uma escritora curda no exílio, como eu, isso não foi apenas mais um vídeo sanguinário e desumano nas mídias sociais. Ele escancarou meu sofrimento histórico e meu trauma transgeracional e me engoliu viva. Me senti paralisada por dias e noites.

Apesar disso, ser uma autora curda é sobre renascimento e resistência. A vida precária dos curdos viajou através da história e continuará a fazê-lo. Se eu fizer o que sei fazer, no mínimo posso mostrar que, na era dos estados-nação, curdos sem pátria importam, e que somos tão complicados, importantes, imperfeitos, engraçados e fascinantes quanto qualquer outro grupo humano. Talvez se formos lembrados de nossa humanidade – dos curdos, de todos – possamos criar políticas globais que reflitam isso.

2 comentários em “Por que resistir é fundamental para a literatura curda

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s