DOSSIÊ BISHOP: Biografia, críticas e política do Brasil

Considerada uma das mais influentes poetas do século 20, a história de Elizabeth não é tão simples.

Biografia

Nascida em 6 de janeiro de 1911 em Worcester (Massachusetts), a pequena Bishop perdeu o pai muito cedo (tão cedo que ele não chegou a participar nem de seu primeiro aniversário).

Sua mãe, afundada pela dor e com diversos outros transtornos mentais, precisou logo ser internada em um hospital psiquiátrico, quando Elizabeth tinha apenas 5 anos. Dessa forma, a criança foi morar com uma parte de sua família materna, no Canadá.

Mas, assim como o restante da caminhada de Bishop, o momento também não foi ideal. Um de seus tios que lá estava a abusa, indicando que nem ali Elizabeth encontraria o calor de um lar.

Alguns anos depois, voltou a Worcester e, mais tarde, morou em Boston, com seus avós paternos. Foi nesse momento que começou a desenvolver ataques de asma e surtos de eczemas.

Inicialmente, tinha a intenção de se tornar médica, mas o amor pela poesia surgiu cedo. Na década de 1920, estudou em Vassar, na França. Foi no Vassar College, inclusive, que iniciou os trabalhos na literatura.

Morou também em Nova York, na Europa e na Flórida. Elizabeth, durante toda a vida, teve dificuldades de sustentar sua carreira de poeta. Participava de alguns concursos, os quais ganhava, muitas vezes. Mas o dinheiro ganhado nesses momentos não durava muito, principalmente após a quebra de Wall Street e o aumento da inflação.

Com pouca coisa a perder, aos 40 anos (em 1951), decide embarcar em um navio cargueiro com a intenção de dar a volta ao mundo. A primeira escala seria o porto de Santos, no Brasil.

images

Elizabeth no Brasil

Poemas, contos, cartas… esses foram os resultados de uma vida brasileira. Ao chegar em Santos, em novembro de 1951, a ideia era conhecer o país por duas semanas. Mas essa estadia durou bem mais.

Para isso, havia um motivo chamado Lota de Macedo Soares. Filha de um magnata da imprensa cariosa, Lota era arquiteta e paisagista. As duas se apaixonaram e passaram a viver juntas no Rio de Janeiro e, em seguida, na fazenda Samambaia, em Petrópolis.

Bishop, que sempre foi muito fechada e tímida, encontrou em Lota aquilo de que sempre fugiu: o amor. Em um caderno, escreveu a seguinte frase: “Às vezes, parece que só as pessoas inteligentes são estúpidas o suficiente para se apaixonar, e que só as estúpidas são inteligentes o suficiente para se permitirem ser amadas”.

Elizabeth chegou ao Brasil no último governo Vargas. Assim, viu a ascensão de JK e a queda de Jango. Em alguns poemas, chega a tratar sobre a política brasileira. Porém, acaba não se aprofundando no assunto. Ao longo do seu relacionamento de 14 anos com Lota, acabava tendo as mesmas opiniões contraditórias que ela.

Em 1967, Lota sofre de uma overdose e acaba morrendo. Por conta disso, Elizabeth volta aos Estados Unidos, onde fica até sua morte.

Em 1956 recebeu o Prémio Pulitzer de Poesia pelo livro North & South. Também ganhou o Prêmio Nacional do Livro e o prêmio nacional do círculo dos Críticos literários. Em 1976, foi a primeira mulher a receber o Prêmio Literário Internacional Neustadt.

Seus poemas estão cheios dos universos pelos quais passou. Suas dificuldades e emoções estão todos ali. Mulher, órfã, lésbica, depressiva e alcoólatra. Tudo presente em sua história e em suas letras.

Bishop era extremamente detalhista e gostava da exatidão. Muitas vezes, demorava meses ou até anos para escrever apenas um poema. Detestava o sentimentalismo e acabava descrevendo suas histórias da maneira mais sóbria que conseguia.

_109887129_5b3951f1-b659-4678-97b2-f74d526e9df8

Flip e as polêmicas

Esse ano, no dia 25 de novembro, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciou Bishop como homenageada. Desde 2003, quando foi criada, a Flip homenageia escritores e poetas brasileiros.

Porém, assim que o anuncio foi feito, iniciou-se um movimento online contra essa escolha. Páginas e sites, principalmente de esquerda, foram desfavoráveis ao nome de Elizabeth.

Um dos motivos é porque, em 1964, a poeta declarou apoio ao Golpe de 64 por meio de uma carta à um amigo. Golpe esse que deu origem à ditadura militar no Brasil, que durou 20 anos com muita censura, repressão e tortura.

Além disso, apesar de ter morado durante anos no Brasil, Bishop escrevia apenas em inglês. Inclusive, traduziu muitos textos portugueses para o mundo literário internacional. Assim, um evento genuinamente brasileiro como a Flip estaria deixando de lado escritores nacionais.

Porém, por outro lado, muitas pessoas também saíram em defesa de Elizabeth, dizendo que a simpatia pelo Golpe era insignificante quando comparada ao restante de sua biografia. Mulher, lésbica, órfã. Todas as outras arestas de história que construíram a poeta eram muito mais importantes do que uma carta, enviada a tanto tempo atrás.

É claro que, após toda essa polêmica, a Flip divulgou um comunicado, sobre o assunto. De acordo com a Casa Azul, organizadora do evento, Bishop “foi uma das grandes responsáveis pela divulgação da literatura brasileira em terras estrangeiras”.

Mas, a Flip assumiu estar analisando o assunto com respeito à todas as opiniões. “[…] a campanha lançada contra a poeta nas redes sociais logo após o anúncio foi bastante expressiva e chamou nossa atenção e escuta. Estamos ouvindo as manifestações de todos e pensando em seu significado com a serenidade que essa questão merece”.

7521873068_fe85308f58_k-920x480
Foto: divulgação Flip

Como tudo isso impacta a política de hoje

As pessoas têm opiniões diferentes. Isso é fato. O pluralismo da consciência e da intelectualidade não torna as pessoas melhores ou piores. No Brasil isso é muito comum, inclusive. Ao mesmo tempo que se defende ideias de esquerda, defende-se, também, um conservadorismo típico de machistas e pessoas brancas.

Ao mesmo tempo em que sororidade é uma palavra em alta, mulheres julgam umas às outras o tempo inteiro, por conta de seus corpos, suas vidas, suas escolhas sexuais.

Isso indica, no máximo, que as pessoas precisam discutir, aprender e ouvir cada vez mais.

Porém, no momento em que vivemos hoje, prestar atenção em nomeações e grandes eventos é fundamental. O presidente que temos hoje no Brasil está escrevendo uma história do nosso país que será julgada como uma das mais incoerentes de todas.

Vivemos em um momento em que a Fundação dos Palmares, vinculada ao Ministério da Cidadania e que promove uma política cultural igualitária e inclusiva para a população negra, tem um “negro de direita” indicado para sua coordenação. Esse mesmo indicado acredita que o racismo é vitimismo e assume ter “vergonha e asco” pela “negrada militante”.

A Funarte (Fundação Nacional de Artes), responsável pelo desenvolvimento de políticas públicas de fomento às artes (como música, teatro, dança e circo) também passa por isso. Atualmente, ela é comandada por um maestro terraplanista que acredita que há ligação direta entre aborto, rock, comunismo e Beatles.

Portanto, nomeações e indicações precisam ser muito bem analisadas e escolhidas. Em um momento de ânimos exaltados (com algumas razões), o mínimo necessário é um clareamento das ideias.

Elizabeth Bishop, apesar de ter tido apenas esse momento de deslize político, apoiou o Golpe Militar de 64. Não da mesma forma que Jair Bolsonaro apoia. Não da mesma forma que os bolsonaristas apoiam. Mas apoiou. É papel da Flip, evento literário de tanta força, declarar de maneira mais enfática que esse momento não é relevante e que esse apoio não é defensivo.

Isso não significa, entretanto, “cancelar” Elizabeth. Na era do cancelamento, perdemos, também, as oportunidades de ensinarmos e debatermos (com seriedade) pontos fundamentais para nossa construção social e política.

Elizabeth continua sendo uma mulher, lésbica, órfã, abusada por seu tio, que viveu em uma época onde isso era ainda mais complicado que hoje. Elizabeth continua tendo sido uma mulher que sofreu de alcoolismo e que escreveu em uma sociedade extremamente machista e elitista, quanto o Brasil e os Estados Unidos do século 20.

Elizabeth continua sendo um nome de muita força, não só por ter ganhado prêmios altíssimos da literatura, mas por ter ajudado a enfatizar e disseminar a cultura literária brasileira, carregando o rosto e um nome de uma mulher.

A questão, portanto, não é a escolha em si. A questão é como a Flip se posicionará a partir disso. Como utilizará essas informações para um debate de qualidade.

19206139959_2442604bd3_k-920x480
Foto: Divulgação Flip

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s